quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Gaspar não foi ao enterro de D. Claudete “Na terça-feira. D. Claudete, 92 anos, saco de compras na mão, vinda do supermercado, finou-se em pleno passeio público, com um AVC fulminante. D. Claudete vivia sozinha. A irmã, um pouco mais nova, está moribunda no hospital há meses. Resta uma sobrinha, desempregada. Foi ela que tratou do enterro. D. Claudete tinha uma reforma de 200 euros e nenhuma poupança. O subsídio de funeral foi cortado. A sobrinha, sem dinheiro, teve de optar pelo funeral em campa rasa. No Alto de São João, vai D. Claudete em seu caixão de pinho, quando um funcionário do cemitério tenta pregar um número identificativo no esquife. O homem da funerária impede-o. “O caixão é para devolver”, diz. O funcionário acompanha então o escasso cortejo, de quatro pessoas, com um pau na mão e em cima o número identificativo. O padre, por sua vez, pergunta se as quatro pessoas presentes são católicas praticantes. Nenhuma é. O padre decide então que não vai acompanhar o féretro. Um dos presentes explica ao padre, com alguma irritação, que ele está ali por causa da senhora, católica praticante, e não pelos presentes, e que é sua obrigação acompanhar D. Claudete à sua última morada. O padre permanece na sua recusa, até que a mesma pessoa lhe pergunta quando custa ir até à campa rasa. 150 euros, responde a santa alma. Recebido o dinheiro, o padre decide-se então a avançar. Há uma escavadora que vai abrindo buracos, que hão de servir de campas rasas, uns a seguir aos outros. Há terra revolvida e, com a chuva, muita lama. Os sapatos enterram-se na lama que há de cobrir os mortos sem posses. Chegada à sua última morada, D. Claudete é retirada do caixão e colocada no fundo da campa, através de cordas. O padre, contrariado, lembra que do pó viemos e ao pó voltaremos. Os coveiros cobrem rapidamente de terra D. Claudete. O funcionário espeta o pau com o número da campa de D. Claudete. Ao lado, outras cinco covas esperam os seus destinatários. A escavadora não para. Paf! Paf! Paf! Contas por alto, só nesse dia havia 45 covas aguardando os donos a quem o progresso da nação não bafejou. O homem da funerária leva o caixão para futuros interessados. Um amigo da sobrinha desempregada paga parte dos 1100 euros que custa, ainda assim, um funeral em campa rasa. Está uma chuva miudinha. Os sapatos estão cheios de lama. Os quatro acompanhantes de D. Claudete regressam lentamente à vida. Entre eles, não está o ministro das Finanças, que não foi ao enterro porque não conhecia D. Claudete, nem conhece milhares de outras D. Claudetes que, um dia destes, se vão finar subitamente no passeio público ou em casa na solidão. E que só poderão ser enterradas em campa rasa, porque o subsídio de funeral foi cortado e já nem chega para tanto.”

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

AINDA NÃO APRENDI

AINDA NÃO APRENDI Cada vez me convenço mais que, mesmo com muita vontade de aprender, tenho dificuldade em fazer, aprender e gostar de certas coisas, ainda não aprendi, a gostar de números e continuo a ser um zero a matemática: Gosto do cheiro do café pela manhã, gosto de tomar sumo de laranja natural em jejum, mas ainda não aprendi a tomar um pequeno-almoço completo ao levantar. Não gosto de jogar nenhum tipo de jogo e até mesmo quando no infantário os jogava com as crianças, consegui aprender a ter prazer pessoal quando com eles jogava. Gosto de andar à chuva, de sentir o cheiro a terra molhada depois da chuva, ou então, quando na minha terra, sentir o aroma de alfazema, jasmim e rosmaninho, numa fusão a que gosto de chamar infância. Mas não gosto do calor e passear pelas ruas ou jardins quando o sol aperta. Gosto do cheiro do mar e de contemplá-lo ao entardecer, gosto de entrar nas suas águas, mas continuo a não saber nadar bem, por medo das suas ondas. Gosto de semear flores, adoro oferecer plantas, gosto de comer morangos e cerejas. Gosto de livros, gosto de os ler, de os acariciar e tê-los sempre por perto de mim, gosto de ouvir discos de vinil no gira-discos que foi da minha familia. Não gosto de emprestar os meus livros e não consigo partilhá-los, nem gostar da música que me é imposta na rádio ou na televisão. Ainda não aprendi a despir os afectos, gosto que gostem de mim, mas não gosto de me impor nem de me sentir a mais. Não tenho o dom da palavra e socorro-me muitas vezes da escrita para exteriorizar o que sinto. Gosto, preciso de escrever, como preciso de respirar. Mas não sei confortar com palavras quem de me mim precisa, não sei ter a palavra certa no momento certo, sem me recorrer da escrita. Não sei dizer adeus, não sei mentir, não sei reter as lágrimas. Mas sei dar um abraço, sei transmitir amizade e ternura nos meus gestos e por vezes consigo trazer sorrisos de volta.