terça-feira, 25 de junho de 2013

SOLIDÃO A solidão era o pão que lhe alimentava os dias. Sentada à velha mesa de carvalho onde repousavam umas flores do quintal, num frasco de vidro deixava-se invadir por memórias antigas. Como fora bonita na juventude! os rapazes da aldeia disputavam-na como abelhas em torno de mel. Havia quem dissesse ser a rapariga mais formosa das redondezas. Casou com dezoito anos. António fora o eleito de seu coração. Um homem robusto e trabalhador que lhe dera dois filhos. Viveram uma vida feliz; com muito trabalho agrícola que lhe vergara as costas, mas também do qual retirou satisfação. Hoje vive dessas memórias. Dos tempos bonitos da juventude, do casamento de cinquenta anos, dos filhos amados e criados com amor e dedicação. O marido falecera num acidente com um tractor. Sofrera. Mas tocara a vida para a frente, mulher de fibra, de garra ....quis ajudar a criar os netos. Quis apoiar nos estudos, para que fossem homens formados. Consegui. A neta é arquiteta paisagista, o neto enfermeiro. Como se orgulha dos seus meninos...mas, sente saudades. Muitas saudades. Os filhos aparecem ocasionalmente. Suspira. Olha através da janela e vislumbra as senhoras do centro de dia que lhe trazem o almoço. são simpáticas, gosta delas. Há uma rapariga de olhos verdes que lhe faz lembrar a neta. Por vezes aparece à noite e fica ali segurando-lhe nas mãos nodosas da artrite e dando-lhe umas palavras amigas. Depois tem de ir para casa, onde os pais a esperam para o jantar. Deixa sempre um chá feito e uns bolinhos de aveia. E ela quem a espera?! A cama vazia e fria numa casa grande dominada por sombras, lembranças e solidão.

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