segunda-feira, 30 de março de 2015

Na alta comédia humana, os chacais e os abutres usam fato e gravata…
passeiam-se em carros topo de gama, até dizem que estudaram e querem cargos que lhes garantam mais tarde, reformas chorudas, na possibilidade de eterna vampirização daqueles que continuam a sangrar para um cálice sem fundo a que chamam país…
Os chacais abundam por aí…
eles sabem onde encontrar as vítimas…
homens, mulheres e crianças, velhos e novos, tudo serve para o repasto da realeza sanguinolenta, onde se banqueteiam os que levaram tudo e não deixaram nada…
Hoje dizem que têm a pança cheia…
arrotam a vitória…
é exactamente o que fazem os chacais…
morrem dentro e enrolados com as suas próprias vísceras…
Este é o mundo horrendo dos humanos, que apenas se sustenta, porque a indiferença dum povo os alimenta…
até quando????????

terça-feira, 3 de março de 2015

Eu aqui me despeço
Eu me despeço.
Volto à minha casa, em meus sonhos.
Volto à Patagônia, aonde o vento golpeia os estábulos e salpica de fresco o Oceano.
Sou nada mais que um poeta: amo a todos, ando errante pelo mundo que amo.
Em minha pátria, prende-se mineiros e os soldados mandam mais que os juízes.
Entretanto, amo até mesmo as raízes de meu pequeno país frio.
Se tivesse que morrer mil vezes, ali quero morrer.
Se tivesse que nascer mil vezes, ali quero nascer.
Perto da araucária selvagem, do vendaval que vem do sul,
das campanas recém compradas.
Que ninguém pense em mim.
Pensemos em toda a terra, golpeando com amor a mesa.
Não quero que volte o sangue...
a molhar o pão, os feijões, a música:
quero que venha comigo o mineiro,
a criança, o advogado, o marinheiro, o fabricante de bonecas.
Que entremos no cinema e bebamos o vinho mais tinto.
Eu não vim para resolver nada.
Vim aqui para cantar e quero que cantes comigo.
Pablo Neruda

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Inventor de Ilusões!
Finjo-me poeta, inventor de ilusões, mágico de utopias "fazedor" de alegrias e deixo-me levar por vales verdes da minha imaginação em tropel, como cavalo alado! Circundeio sonhos, danço de mãos dadas com fantasias, navego anseios, flutuo sobre os sorrisos da vida e voo feliz sobre trigais de paixões! Abraço os raios translúcidos do sol, que me invade a alma com seu ardor, respiro maresias, cavalgo ondas irrequietas de saudades, escuto murmúrios que se espraiam em espuma, sussurra-me o luar, doce melodia, de harpa estelar! Sinto tudo o que penso, sem desalentos em louca orgia de sentimentos num turbilhão de emoções porque me finjo poeta de ilusões.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI " Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai. É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso. É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe. É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios. E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz. Todo filho é pai da morte de seu pai. Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta. E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais. Uma das primeiras transformações acontece no banheiro. Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas. Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes. A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões. Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus. Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente? Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete. E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia. Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos. No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e — Deixa que eu ajudo. Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo. Colocou o rosto de seu pai contra seu peito. Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo. Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável. Embalou o pai de um lado para o outro. Aninhou o pai. Acalmou o pai. E apenas dizia, sussurrado: — Estou aqui, estou aqui, pai! O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Escrevo-te Hoje, ainda, te escrevo palavras que não irás ler temperadas pelo sal da minha alma, acalentadas pelo cálido suspiro do coração que insiste em querer vencer a razão, corroer a verdadeira voz do meu ser. Perdida nos mistérios da noite entrego-te as palavras mais brandas que entre os dedos construí - dançam no silêncio do olhar- para me alimentar de ti, rasgar esta saudade fria... beber de cada palavra o néctar do nosso amor. Escrevo-te para silenciar esta amargura que trago no peito, lateja no pensamento. Escrevo-te... silencio o mundo, visto-me de ti da cor do intenso desejo que reluzia no teu olhar, aqueço-me com o calor do teu abraço permanecendo completa na doce ilusão do teu enlaço

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Primeiro foram os funcionários, depois os pensionistas, a seguir, outra vez, os funcionários e pensionistas e, finalmente, castigam-se os cônjuges que sobrevivem. Deviam acompanhar o morto à pira funerária.

terça-feira, 25 de junho de 2013

SOLIDÃO A solidão era o pão que lhe alimentava os dias. Sentada à velha mesa de carvalho onde repousavam umas flores do quintal, num frasco de vidro deixava-se invadir por memórias antigas. Como fora bonita na juventude! os rapazes da aldeia disputavam-na como abelhas em torno de mel. Havia quem dissesse ser a rapariga mais formosa das redondezas. Casou com dezoito anos. António fora o eleito de seu coração. Um homem robusto e trabalhador que lhe dera dois filhos. Viveram uma vida feliz; com muito trabalho agrícola que lhe vergara as costas, mas também do qual retirou satisfação. Hoje vive dessas memórias. Dos tempos bonitos da juventude, do casamento de cinquenta anos, dos filhos amados e criados com amor e dedicação. O marido falecera num acidente com um tractor. Sofrera. Mas tocara a vida para a frente, mulher de fibra, de garra ....quis ajudar a criar os netos. Quis apoiar nos estudos, para que fossem homens formados. Consegui. A neta é arquiteta paisagista, o neto enfermeiro. Como se orgulha dos seus meninos...mas, sente saudades. Muitas saudades. Os filhos aparecem ocasionalmente. Suspira. Olha através da janela e vislumbra as senhoras do centro de dia que lhe trazem o almoço. são simpáticas, gosta delas. Há uma rapariga de olhos verdes que lhe faz lembrar a neta. Por vezes aparece à noite e fica ali segurando-lhe nas mãos nodosas da artrite e dando-lhe umas palavras amigas. Depois tem de ir para casa, onde os pais a esperam para o jantar. Deixa sempre um chá feito e uns bolinhos de aveia. E ela quem a espera?! A cama vazia e fria numa casa grande dominada por sombras, lembranças e solidão.